Foto: Bruno Eduardo Alves
Foto: Bruno Eduardo Alves

Quem enfrenta o trânsito diário em Niterói sabe que o problema vai muito além da demanda local. A cidade acabou se tornando o principal funil viário do Leste Fluminense, absorvendo um volume de veículos e passageiros que não tem Niterói como destino final, mas que precisa atravessá-la para chegar ao Rio de Janeiro.

O resultado é conhecido do contribuinte: congestionamentos crônicos, perda de horas produtivas e desgaste diário — um custo pago por quem mora, trabalha e circula na cidade.

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A centralidade de Niterói no Leste Fluminense

Niterói exerce uma centralidade logística incontornável na Região Metropolitana. Motoristas e passageiros que saem de São Gonçalo, Maricá, Itaboraí e Rio Bonito precisam, em grande parte dos casos, passar por Niterói para acessar a ponte.

Nos dias úteis, esse fluxo é essencialmente pendular, formado por trabalhadores e estudantes. Já em feriados e fins de semana, soma-se o tráfego intenso da Região dos Lagos, o que agrava ainda mais a situação — ainda que esse último não pese tanto no cotidiano semanal.


Ponte Rio–Niterói: um gargalo metropolitano dentro da cidade

O acesso à Ponte Rio–Niterói concentra praticamente todo o tráfego rodoviário do Leste Fluminense com destino à capital. Para chegar à ponte, veículos precisam atravessar vias urbanas de Niterói, transformando bairros inteiros em corredores de passagem.

O problema se agrava no funil da praça do pedágio, onde a promessa do sistema Free Flow se arrasta em estudos desde 2024, sem implementação concreta. Enquanto isso, filas se formam diariamente e o impacto recai, mais uma vez, sobre a cidade.

Funil se forma na Praça do Pedágio. (Foto: Leitora cidadedeniteroi.com)

Barcas e ônibus: soluções regionais, impacto local

O transporte aquaviário é fundamental para a mobilidade metropolitana, mas também gera efeitos colaterais urbanos. A linha de barcas Praça XV–Arariboia, operada hoje pela Barcas Rio, transporta diariamente milhares de passageiros — muitos deles vindos de fora de Niterói.

Somam-se a isso os ônibus intermunicipais que chegam ao Terminal Rodoviário João Goulart, trazendo moradores de São Gonçalo, Maricá e outras cidades limítrofes. Embora essenciais para a integração regional, esses fluxos pressionam diretamente o trânsito urbano de Niterói, especialmente no Centro e nos acessos à ponte.

Estação das Barcas da Praça XV, no Centro do Rio | Arquivo

Linha 3 do Metrô: a solução que nunca saiu do papel

Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: por que a Linha 3 do Metrô nunca saiu do papel? O projeto, que ligaria Niterói, São Gonçalo e possivelmente Itaboraí ao sistema metroviário do Rio, poderia retirar milhares de veículos das ruas diariamente.

A inexistência dessa linha mantém a dependência quase total do transporte rodoviário e empurra a sobrecarga para Niterói, que segue pagando a conta de uma omissão histórica.

© Tomaz Silva/Agência Brasil

Por que não há barcas em São Gonçalo?

Outra alternativa lógica seria a implantação de uma estação de barcas em São Gonçalo, reduzindo o número de passageiros que hoje precisam se deslocar até Niterói para atravessar a Baía de Guanabara.

Como a concessão do transporte aquaviário é de responsabilidade do Governo do Estado, a decisão é política. O fato de o prefeito de São Gonçalo ser aliado do governador Cláudio Castro apenas reforça a pergunta que muitos fazem: o que falta para essa solução avançar?

Foto: Renan Otto

Maricá avança — e pode aliviar Niterói

Enquanto isso, Maricá já iniciou estudos para uma linha de barcas direta até o Centro do Rio. Caso saia do papel, a medida tem potencial para desafogar significativamente o trânsito em Niterói, ao retirar parte do fluxo que hoje passa obrigatoriamente pela cidade.

É um sinal de que alternativas existem. Falta transformá-las em política de Estado.

Ferry boat entre Rio e Maricá | Imagem gerada por IA

O problema não é técnico. É político.

Linha 3 do Metrô, barcas em São Gonçalo e Maricá, Free Flow na ponte. As soluções são conhecidas, estudadas e debatidas há anos. O que falta é vontade política.

Enquanto governos pensam em projetos de curto prazo e evitam decisões estruturais, quem paga a conta é o cidadão. O contribuinte que perde horas no trânsito todos os dias, vê sua qualidade de vida diminuir e segue sem respostas.

Niterói não sofre por acaso. Sofre porque se tornou o ponto de passagem de uma Região Metropolitana que nunca foi planejada como sistema integrado. E, até que isso mude, o preço continuará sendo pago por quem menos deveria pagar: a população.