Reprodução / Cedoc/TV Globo
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O Brasil se despediu neste sábado (10) de Manoel Carlos, um dos mais importantes autores da história da televisão brasileira. Conhecido como Maneco, o novelista morreu aos 92 anos, no Rio de Janeiro, onde estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana. A informação foi confirmada pela família. A causa da morte não foi divulgada.

Nos últimos anos, o autor enfrentava complicações decorrentes da Doença de Parkinson, que afetaram suas capacidades motoras e cognitivas.

Globo/Divulgação

O autor que fez do cotidiano grandes histórias

Manoel Carlos construiu uma carreira marcada por tramas realistas, diálogos profundos e conflitos familiares capazes de mobilizar milhões de brasileiros. Suas novelas transformaram o cotidiano da classe média, especialmente do Rio de Janeiro, em narrativa dramática envolvente, onde o amor, o sacrifício, o ciúme e a ética eram protagonistas.

O bairro do Leblon, a orla carioca e os encontros em cafés e salas de estar tornaram-se quase personagens fixos de suas obras, criando uma identidade única na teledramaturgia nacional.


As Helenas: um símbolo da mulher brasileira

Um dos maiores legados de Manoel Carlos foi a criação das icônicas “Helenas”, personagens femininas fortes, complexas e emocionalmente intensas, presentes em novelas como:

  • Baila Comigo (1981)
  • Felicidade (1991)
  • História de Amor (1995)
  • Por Amor (1997)
  • Laços de Família (2000)
  • Mulheres Apaixonadas (2003)
  • Páginas da Vida (2006)
  • Viver a Vida (2009)
  • Em Família (2014)

Segundo o próprio autor, o nome Helena foi inspirado na mitologia grega, simbolizando mulheres capazes de tudo em nome do amor — inclusive cometer injustiças para proteger os filhos.


Uma carreira que atravessou gerações da TV brasileira

Embora eternizado como novelista, Manoel Carlos iniciou sua trajetória artística como ator, ainda aos 17 anos, no Grande Teatro Tupi. Na década de 1950, passou a escrever, produzir e dirigir para diversas emissoras, adaptando mais de 100 teleteatros.

Antes de chegar à TV Globo, atuou em veículos históricos como TV Tupi, TV Record, TV Excelsior e TV Rio, além de dividir redação com nomes como Chico Anysio, Ziraldo e Mário Tupinambá.

Na Globo, estreou em 1972 como diretor-geral do Fantástico. Em 1978, assinou suas primeiras novelas na emissora, como Maria, Maria e A Sucessora, consolidando um estilo próprio que influenciaria toda a dramaturgia posterior.


Novelas que marcaram o Brasil

Entre seus maiores sucessos estão obras que se tornaram referência cultural:

  • Por Amor – famosa pela troca de bebês que chocou o país
  • Laços de Família – com a icônica cena de Carolina Dieckmann raspando o cabelo
  • Mulheres Apaixonadas – que abordou violência doméstica e relações abusivas
  • Páginas da Vida – com debates sobre inclusão e deficiência
  • Viver a Vida – que trouxe a primeira Helena negra, interpretada por Taís Araújo

Além das novelas, escreveu minisséries como Presença de Anita (2001) e Maysa – Quando Fala o Coração (2009).


Impacto social e compromisso com temas sensíveis

Manoel Carlos também ficou conhecido por inserir campanhas socioeducativas em suas tramas, abordando temas como:

  • Doação de medula óssea
  • Alcoolismo
  • Violência contra a mulher
  • Preconceito e inclusão social
  • Direitos das pessoas com deficiência

Para o autor, o drama precisava ser verossímil, próximo da vida real, capaz de gerar reflexão sem perder o apelo popular.


Vida pessoal e despedida

Nascido em 1933, em São Paulo, Manoel Carlos sempre se declarou carioca de coração. Ele deixa duas filhas vivas: a atriz Júlia Almeida e a roteirista Maria Carolina, sua colaboradora em diversas novelas.

Outros três filhos faleceram ao longo dos anos, perdas que marcaram profundamente sua vida pessoal.

O velório será restrito à família e amigos próximos.