Foto: Freepik
Foto: Freepik

A madrugada desta terça-feira (20) expôs, mais uma vez, uma realidade que o morador de Niterói conhece bem — e está cansado de viver. Após uma noite de chuva moderada a forte, fenômeno absolutamente comum no verão, bairros inteiros da cidade ficaram horas sem energia elétrica.

Em Icaraí, na Zona Sul, por volta das 22h, quando a chuva ainda era fraca, uma forte explosão em um poste da Enel assustou moradores. Não foi um episódio isolado. Ao longo da madrugada, sucessivas explosões ocorreram na rede elétrica, deixando prédios residenciais, condomínios e estabelecimentos completamente às escuras até o início da manhã.

O problema não é a chuva. O problema é a Enel.

Uma rede elétrica velha, exposta e insegura

O que se vê nas ruas de Niterói é uma infraestrutura elétrica ultrapassada, precária e perigosamente exposta. Fios pendurados em postes, cabos caindo sobre calçadas, redes aéreas sem manutenção adequada e postes visivelmente comprometidos fazem parte do cotidiano da cidade.

Do ponto de vista técnico, trata-se de uma rede com alto grau de obsolescência, marcada por:

  • equipamentos antigos;
  • baixa capacidade de resiliência climática;
  • falhas recorrentes de isolamento;
  • ausência de modernização estrutural compatível com a densidade urbana atual.

Não são eventos extremos que derrubam a energia em Niterói. São chuvas normais.

Quando postes ficam “bambos”, inclinados ou prestes a cair, a população precisa praticamente implorar para que a concessionária faça a substituição. O atendimento é lento, burocrático e, muitas vezes, ineficiente. Enquanto isso, moradores convivem com risco real de acidentes, incêndios e interrupções constantes no serviço essencial.

A conta chega cara — e a punição vem rápido

Enquanto o serviço falha, a conta de luz só aumenta. O consumidor paga caro por um fornecimento instável, mas não recebe tolerância alguma quando atrasa o pagamento por poucos dias.

É comum que famílias tenham o nome negativado no Serasa por atrasos mínimos — muitas vezes porque o vencimento da fatura não coincide com a data de pagamento do salário. A Enel não dialoga, não flexibiliza e não considera a realidade financeira do trabalhador. A punição é rápida.

O contraste é revoltante:

  • energia falha por horas ou dias,
  • explosões em postes,
  • rede insegura,
    mas o consumidor é tratado com rigor máximo.

MPF questiona renovação da concessão da Enel

Em setembro de 2025, o Ministério Público Federal (MPF) deu um passo importante ao pedir à Justiça a anulação da recomendação da Aneel para renovar a concessão da Enel por mais 30 anos. A empresa atende 73% do território do estado do Rio de Janeiro, impactando cerca de 7 milhões de pessoas.

Segundo o MPF, a Enel:

  • se aproveitou de falhas na fiscalização da Aneel;
  • manipulou indicadores de qualidade do serviço;
  • apresenta gravíssimas falhas, abusos e omissões.

A ação se baseia em relatório do deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), que questiona a fragilidade dos critérios usados para avaliar a renovação da concessão.

A própria agência reguladora reconhece que a Enel lidera o ranking de reclamações e está entre as empresas com mais ações judiciais no Tribunal de Justiça do Rio.

Expurgos que escondem o caos

Outro ponto grave: quando há temporais, quedas de árvores ou eventos climáticos previsíveis, a Enel solicita à Aneel que essas interrupções não sejam contabilizadas nos índices oficiais de qualidade, por meio dos chamados “expurgos”.

Entre 2020 e 2024:

  • a média de expurgos das distribuidoras foi de 54,73%;
  • a Enel chegou a 115,47%, mais que o dobro.

Ou seja: a empresa precisou “apagar dos relatórios” mais interrupções do que o próprio limite previsto, sob alegação de emergência.

O MPF é direto:

“As interrupções de fornecimento fugiram totalmente do controle da concessionária.”

Niterói exige respeito

Niterói não pede privilégios. Pede respeito.

Respeito ao morador que paga caro por um serviço essencial.
Respeito à cidade que cresce e exige infraestrutura compatível.
Respeito à vida, à segurança e à dignidade da população.

Chuvas vão continuar acontecendo. Explosões em postes, não.
Apagões não podem ser tratados como rotina.
E uma concessionária que falha repetidamente não pode ser premiada com mais 30 anos de contrato.