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‘Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil’: a construção do carnaval turístico no Rio de Janeiro

Crédito da fotografia: Hemeroteca Digital Brasileira

Pesquisadora da UFF identifica no começo da construção do carnaval do Rio disputas entre o associativismo negro das escolas de samba e as ações políticas de turistificação do evento

No Rio de Janeiro, a história do carnaval e do turismo são inseparáveis. À medida que a data se aproxima, a cidade maravilhosa se prepara para receber turistas de todo o mundo em busca da vivência dessa festividade. Com o intuito de entender um recorte histórico do carnaval carioca, Fabiana Martins, doutora em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF), analisa em sua tese o entrelaçamento entre as escolas de samba e as ações políticas que transformaram o carnaval do Rio de Janeiro em um destino turístico mundialmente conhecido.

Com o título de “Modernidade Negra na Praça Onze: escolas de samba, ação política e a construção do  Carnaval turístico”, a pesquisa traz o atravessamento entre a questão racial, muito presente na formação das escolas de samba, e a turistificação do carnaval carioca. “Em minha experiência como guia, pude perceber que as escolas não só são essas instituições carnavalescas mais longevas, como em décadas se mantém nesse lugar hegemônico, pelo menos no que diz respeito a esse carnaval turístico. O trabalho despertou uma inquietação sobre o lugar que o desfile das escolas de samba ocupava e ocupa no imaginário do turista que visita o Rio de Janeiro, e o quanto essa festividade é representativa nesse imaginário estrangeiro sobre o carnaval do Brasil”, conta.

 

A pesquisadora aponta que, desde os anos 20, o carnaval já vinha sendo utilizado como atrativo turístico, e que ele acompanha a própria organização do setor de turismo no Rio. Com o processo de turistificação, o carnaval começou a ser visto não apenas como período de aumento do fluxo de visitantes, mas um mercado em desenvolvimento ao redor dessa festividade. “De acordo com a bibliografia sobre a história do turismo, a oficialização do carnaval como evento turístico se dá justamente quando a prefeitura passa a destacar um setor da burocracia para tratar dessa questão. Nesse ponto, o carnaval atendia também a interesses políticos, além dos interesses econômicos desse mercado em formação”.

Fabiana destaca que a pesquisa é construída a partir do entendimento de que cultura e política estão intimamente entrelaçados. Essa ideia pode ser observada historicamente após a revolução de 30, com a gestão municipal do governo Pedro Ernesto, primeiro como interventor, e depois de 1934 como o primeiro prefeito eleito indiretamente no Rio de Janeiro. “O governo Pedro Ernesto torna o carnaval turístico uma política de estado. Havia um interesse em entender as relações políticas entre a municipalidade, a imprensa carioca e as agremiações carnavalescas, especialmente as escolas de samba”, explica.

    © Arquivo Nacional/Divulgação

Ao acompanhar o processo de organização oficial do carnaval a partir da década de 30, a pesquisadora observou a necessidade pensar também esse associativismo negro das escolas de samba do Rio de Janeiro, portanto, a questão racial também atravessa toda a discussão. Nesse sentido, existem dois temas que se entrelaçam no estudo: primeiro, quanto ao histórico da construção do carnaval turístico, e também a reflexão sobre as escolas de samba e seus sambistas enquanto agentes de sua história. “Me questionei sobre como essa organização vai se posicionar politicamente, usando o carnaval como uma forma de expressão”, acrescenta.

Da Praça Onze à Avenida Rio Branco: dois projetos de carnaval

Ao longo dos anos 30, havia certa ramificação na imprensa de cronistas carnavalescos. Alguns eram mais ligados ao projeto de carnaval que acontecia na Avenida Rio Branco, promovidos pelas tradicionais e grandes sociedades de samba, que vinham, desde os anos 20, envolvidas na promoção do carnaval como um atrativo turístico. Outros cronistas se relacionavam mais com o carnaval da Praça Onze, tido nesse momento como marginal, a parte do evento que não deveria ser vista pelos estrangeiros. Esse era o carnaval dos blocos e ponto de encontro tradicional dos antigos ‘ranchos’.

“A partir do fim da década de 30, o carnaval da Rio Branco se torna mais interno, sendo direcionado para clubes, cassinos e bailes. Por outro lado, pensamos também como o carnaval da Praça Onze era visto na imprensa, e qual é a importância dele na transformação que o próprio carnaval de rua vai sofrer com o processo de turistificação. Então, ao longo dos capítulos a discussão é sobre qual carnaval estamos falando”, pontua Fabiana.

A pesquisadora relata que após a prisão do prefeito Pedro Ernesto, pouco antes do golpe de 37, no Estado Novo, o substituto, Henrique Dodsworth, atuou com uma política de turismo bastante diferente da anterior, mais focada em privilegiar os carnavais internos, e deslocar os eventos de carnaval para áreas da zona sul. “Nesse momento, acontece um grande incentivo para retomar o projeto de turismo anterior, mais voltado aos interesses de grupos empresariais, e do desenvolvimento de uma Orla turística na zona sul, causando inclusive um certo esvaziamento do centro nesse período”.

Henrique Dodsworth fica na prefeitura do Rio de 1937 a 1945, portanto, todo o período do Estado Novo, momento em que o projeto varguista para a cidade, como capital, incluía levar o samba para exposições internacionais, por exemplo. Nesse processo também há certa repressão e vigilância da relação estabelecida entre as escolas de samba e o governo. “Enquanto tudo isso está acontecendo, o samba vai sendo elevado na crítica a uma condição de música representativa do Brasil no exterior, ao mesmo tempo em que o governo Vargas vai buscar ampliar suas relações internacionais, especialmente com os Estados Unidos”.

O samba que desce o morro: a contradição da democracia racial através do carnaval

Ao longo da pesquisa, Fabiana reafirma a importância de pensar as contradições desse projeto para o samba na construção do carnaval turístico. “Nesse período Varguista existe uma divisão entre um samba branco, executado por artistas brancos, ao mesmo tempo em que há esse samba das escolas de samba, um samba negro, que seguia sendo muito atacado e invisibilizado por alguns setores da imprensa”.

Entretanto, segundo a pesquisadora, desde os anos 20, e até um pouco antes, existem alguns registros da associação do carnaval a uma festa onde todos se encontram e essa ideia vai ser um lugar comum muito recorrente na imprensa. Nos anos 30 o discurso da harmonia social se fortaleceu associado ao samba, que era tido como a música que une as diferenças, que ‘desce do morro para fazer sucesso na cidade’.

É nesse contexto que os intelectuais da época estão falando sobre a criação da identidade mestiça. Assim, o samba e o carnaval, especialmente, o carnaval das escolas de samba, é tido como uma prova dessa solução tipicamente brasileira para a harmonia racial, que traz a especificidade do Brasil, e que, portanto, deveria ser mostrado ao mundo.

“Nesse momento, parte da imprensa vai estar mais ligada aos sambistas e menos ligada aos salões. Esses sambistas vão, inclusive, defender em vários momentos que o samba do morro é mais autêntico, e que quando ele chega na cidade ele se modifica e se corrompe. Vagalume, por exemplo, é um cronista muito importante da época que vai trazer a diferenciação dos sambas”, acrescenta a doutora.

Pensando no final dos anos 30, início dos anos 40, a pesquisa expõe como essa ideia de identidade mestiça associada ao carnaval é bastante contraditória na prática. Por um lado, há uma exaltação ao samba como música nacional que prova essa identidade mestiça. Por outro, há um cerceamento político das ações dessas associações de sambistas.

Os dois projetos de carnaval percebidos no recorte temporal estudado disputam espaço como atração turística: os carnavais internos, dos clubes e bailes, que cooptaram o samba para espaços frequentados por uma elite branca, com o objetivo de serem exportados; e o carnaval de rua, da praça onze, que se posiciona através de um protagonismo negro. “Ao mesmo tempo em que as escolas de samba se apropriam do conceito de brasilidade para se afirmarem como brasileiras, o samba do morro também se apropria desse conceito para estabelecer uma relação com o estado. Assim, esse valor cultural é visto ali como algo interessante para vender uma ideia de harmonia racial no Brasil para o exterior”.

Considerando que o fim dos anos 40 é um contexto em que existem muitos estigmas associados aos morros e subúrbios do Rio de Janeiro, o carnaval se torna a oportunidade para as populações negras e suburbanas mostrarem uma outra imagem para a sociedade. Dessa forma, o associativismo das escolas de samba torna-se político e tem um posicionamento marcado ao longo todo o processo que envolve a turistificação do carnaval, principalmente ao formar alianças políticas no período pós segunda guerra.

Hoje, o carnaval carioca se consolidou como um negócio, além de ter se tornado um grande momento de arrecadação para o estado. O evento também se estabeleceu como mercado de trabalho para muitas pessoas, que trabalham o ano inteiro para colocar as escolas de samba na avenida. Fabiana pontua que, nos últimos anos, as vozes e intelectualidades negras vem ganhando espaço novamente, deixando para trás uma fase polêmica de enredos patrocinados nas escolas de samba.

Contudo, para a pesquisadora ainda há uma permanência do racismo em muitos discursos da imprensa, principalmente pela mentalidade persistente na história recente que relaciona a figura do carnavalesco à um intelectual branco, vindo das escolas de belas artes, que, enquanto arraigado em uma epistemologia eurocêntrica, coloca-se como mente criadora nas escolas de samba. “Minha inquietação agora é como os lucros que vem do evento estão sendo distribuídos, e em que medida essas décadas de relação com o poder público se refletem em melhorias relevantes para as comunidades de origem das escolas de samba”, conclui.

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Fabiana Martins Bandeira é professora de História da rede pública de Cabo Frio-RJ, atuando nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio na Escola Agrícola Municipal Nilo Batista. Doutora em História Social (PPGH/UFF, 2023); Mestra em História (PPGH/UNIRIO, 2010), Especialista em Sociologia Urbana (UERJ, 2009), Bacharel e Licenciada em História (UNIRIO, 2007). Tem experiência na área de História, atuando principalmente nas seguintes áreas: História do Brasil, História do Rio de Janeiro, História Social da Cultura, Memória Social e Patrimônio, História do Turismo e História Pública.

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